quarta-feira, 2 de março de 2011

Sim, porque eu já fui eu...

Mas cheguei à triste conclusão de que não sou mais eu.

Meu nome, que por isso mesmo, já esqueci,
não interessa mais a ninguém.

Para um médico, sou apenas cliente.

Num restaurante, sou freguesa.

Quando alugo uma casa, viro inquilina.

Na condução sou passageira.

Nos correios, sou remetente.

No supermercado sou consumidora.
Para você, eu sou mais "uma" na sua longa lista...

Para o Imposto de Renda sou contribuinte,
com o prazo vencido sou inadimplente e se não pago sou sonegadora.

Para votar, sou eleitora; mas no comício sou massa.

Viajar? Viro turista.

Na rua, caminhando, sou pedestre; e se me atropelam sou acidentada;

No hospital viro paciente e para os jornais sou vítima.

Se compro um livro, viro leitora; para o rádio sou ouvinte;
para o Ibope, espectadora e, para o futebol, eu,
que já fui torcedora, virei galera.

Para acabar com esse complexo... sim, porque estou complexada ...
Aconselharam-me a procurar um terreiro.
Mas foi tiro n'água.
Assim que falei com o pai-de-santo, virei mi-zi-fi-i-nha.

Já que, quando morrer, ninguém vai se lembrar do meu nome.

Vão me chamar de finada, a extinta, a defunta e,
em certos casos círculos, até de a desencarnada...

E pensar que, no meu apogeu, já fui mais eu.

Mirella.


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