sábado, 26 de fevereiro de 2011

Prisão de um sabiá

Um sabiá, preso em seu aposento,
Pulava sobre a varanda arredia,
Seu olhar contestava o tormento,
Marcado pelos sintomas que sentia.

Acalmou-se, no fundo da prisão.
As penas cinzentas e arrepiadas,
Descontente, vendo o chão
Que outrora cantou nas madrugadas.

Pôs um pedaço de manga ao bico,
Soltou-o, bicou um pouco de água suja,
Balançou todo o seu corpo,
Encolheu-se, junto à vasilha, de cuja

Comida já estava cheirando mal.
Baixou a cabeça, numa tremedeira,
Ouviu uma voz, era dum som casual;
Abriu os olhos, viu o pé de laranjeira,

Ficou admirado, olhando a folhagem
Que o vento levava e trazia,
Uma saudade lhe veio à tona,
De quando voava e subia,

Entre galhos, que sempre cantava
Com outros sabiás nas campinas;
No seu pensamento restava
A memória dos montes, das colinas...

Neste ar de ternura e piedade,
O pobre do sabiá, tristemente,
Cantou a ultima vez à impunidade,
Por condenar-lhe, eternamente!...


28 de dezembro de 2009.

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