domingo, 24 de março de 2013

Soneto da sede


É mais triste sentir sede
e não ter onde beber,
é doído pedir, querer
sentindo algo que impede
 

O olhar que tanto pede
outra condição de beber,
de matar e esta a morrer
pela falta que despede
 

a hora última, soluçante
quando o ser apela a vida
idefeso, diante a majestosa,
 

vossa aclamação é vencida
pela desculpa impiedosa

da insaciável razão mutilante!
24 de março de 2013

quinta-feira, 21 de março de 2013

Soneto da alvorada


A Veiga balança a galha torta
Onde a brisa boceja o vapor puro,
O pássaro bica o fruto maduro
Que o caroço apartou-se da crosta

O vento concho esfria a encosta,
E o bulício, vingando o véu agudo,
Traz a existência, um alvor veludo
Implorando a vicissitude deposta!

O botão em flor foi-se volvendo,
Enchendo a floresta de ramaria,
Mil sonhos acordando a sinfonia;

Do riacho, a carência em demasia,
Da margem, o filme divino da poesia,
E toda alma aflita, se estendendo!...


Pombal, 22/11/11

Laços da hetaíra


Depois da cúpula sangrenta
a faminta ópera semeia,
Do moço a lânguida veia
fermenta tua lâmina sedenta

Banhada de sequiosas espumas
fumaste do arroubo crepitante,
não mais o furor palpitante
que na terna e volumosa escuma

mas redestes ao afável, delira
nas plagas idônias, selvagens;
teu dorso, tua ira, são massagens
excentricas dos gomes da hetaíra

E fizeste do olhar moribundo
a cratera de todos os mistérios
Forjou-se o corpo em adultérios
vomitando a culpa do gozo imundo!



10 de março de 2013

segunda-feira, 13 de junho de 2011

O hóspede e a flor

( A Abigail, filha da serva Dorisleide e do servo Edinaldo).

Feito o broto que sai da rocha
e em pétalas de coral se desfia,
uma eminente flor desabrocha
ao túmido orvalho da fonte fria.

Estando em meio ao vasto campo,
onde a relva traga as borboletas,
um arcanjo, vestido do manto
celestial, e as tuas bordas violetas,

Pôs-se na, corpo e alma; a flor
quisera ser querubim, a teus pais!
e a tua graça e o teu amor,
preencheram as lacunas da paz!

Da pura inocência, e da luz divina,
fêz-se banquete ao adorar o culto,
junto ao pai, como anjo menina,
Mas veio um hóspede, e por insulto,

beijou-a nas tranças de brilhante,
e vendo o pai que havia criado,
rogou ao hóspede errante,
tu avanças a filha, ó gesto ignorado!

O homem triste chamou-o a um canto;
fostes tu que gerastes a esta criança?
não o sabes, o quão e tanto,
a Deus, custa a vossa esperança?...

És do vale, aurora embevecida.
Do ouro, a chama que fluiu;
Da vida, maior presente, - tua querida
e amada filha, o anjo Abigail!

Mas partas tu, ó hóspede andarilho,
para o término da tua jornada,
e sigas, do infante junquilho,
a flor, que não pode mais ser beijada!...


Pombal - PB, 05 de junho de 2011.

Jairo Alves

domingo, 29 de maio de 2011

A Pretinha,
por meu amor,

ADRIANA!...

Nosso encontro, desde o princípio,
fostes de uma amiga, de uma mulher.
Hoje, de toda palavra, qualquer
que saia de sua boca, é alívio!

Pois nunca me esquecerei
do que fizestes para mim!
Estive longe, estive só, e assim
você me trouxe, como precisei,

um amor simples e seguro,
com carinho, e me mostrasse
um caminho e me amasse,
o quanto, e tão, Deus é puro!...

Ser minha, ser a minha rainha,
Tinha de ser ouro, dádiva de Deus!
E veio dum anjo, pelos ditos teus,
mas ganhou nome, PRETINHA!!!...


Pombal PB, 29 de maio de 2011.

sábado, 28 de maio de 2011

Há um hóspede no abismo

(a um gatinho perdido a beira do asfalto,
na noite de 27 de maio de 2011.)

Aos vagos delírios do asfalto,
um gato, vencido do furor da noite,
fingia-se a frieza dum salto,
a luz agita dos faróis, e o açoite

engano e o pavor da solidão,
fincaram-no ao luto em meio;
e aos berros do valente tufão,
pasmou-lhe o destino alheio!...

Quem o dera fosse acampado
e ao menos, conviesse o tempo!
Da alma do hóspede desgarrado,
desfilava sua ausência ao vento!

E foram multando os grilos, a lua,
a vigília da inocência fatigada;
a uns, destes a sentença dócil e nua,
a outros, o fel da instância abandonada!...

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Ao meu amigo Gleyrton Nascimento

Como devo eu descançar,
se por bem, e tão somente,
alguém estando a me falar
da tua virtude, verdadeiramente?

Como seria ingrata, a noite,
o coração não lhe desse ouvidos!
Mas vibram a gemer de açoite,
o peito e a alma, comovidos!

Não sei quando me chegou,
nem por quanto me comprastes;
Sei que não me demorou
a saber que em mim plantastes!

Que os versos que proclamei-te,
escorram sobre as hastes da esperânça,
a toda hora lembrar que amei-te,
e a nossa amizade, seja desta lembrança!...


21 de maio de 2011.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Ao meu amor

Direi antes e tão somente,
ao meu amor, que;
a graça e a união da gente,
haja, por ter que haver

enquanto dure, entre nós,
esse amor que tu sentes,
e sinta eu, que a sós,
não serei, sem sementes...

Sem tuas carícias, sem os laços
do verdadeiro sentimento,
sem o teu sorriso, teus abraços;
Como seria eu, e de momento,

Nenhuma razão acompanhasse?
Mas só a de te ver eternamente,
feliz na vida, me apressasse,
a conjugar teu nome, infinitamente!...

Há, serei parte do tesouro divino;
Serei sempre o teu poeta de dor,
Clamar-te-ei, tua alma de menino,
Amar-te-ei, feito a fonte do AMOR!...

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Assim são para um mundo sã

Um sopro não sai a vulso,
nem a força implora o pulmão cheio,
os olhos de medo medram o universo alheio,
por pena,
cordas de sangue
arrancam-lhe da aurora,
o porvir da ventura vertente...

Ninguém ousa saber o quanto dói,
ninguém busca palavras que voam segundo
a segundo,
e se mistura a confluência da razão inoportuna.

Os gestos se perdem atoa
como atoa
não gira o vosso mundo,
são pedras coloridas em meio as encardidas,
são jóias ao um solo mudo,

porque são as crianças para o mundo,
a versão desconhecida
de um amor impuro
aos trópicos do poder
das armas ingratas dos adultos.

Quem o dera
fosse
esta voz ouvida
as frestas destes corações pequenos?...

porque não são maiores do que se veem,
nem tão desgarradas criaturas,
que as faces não cubram
a ira dos homens miúdos de hoje.

11/04/2011.
A vida tem destas coisas

Não se preocupe a vida tem destas coisas...
Peço aos meus filhos que se protejam da violência

Ultimamente as coisas que desejo, já não as tenho, não estão presentes
Mas o que me conforta é saber que não se perde o que nunca teve

E o desemprego entristece tanta gente, por saber que podem ser úteis e não os querem mais
Das lembranças boas que tenho de você é saber que eu era importante em sua vida
Agora vejo que o seu silêncio me diz algo
E pensar nisso dói

Ás vezes eu deseja em não ser quem eu sou
E por um minuto, que não é real, me sentia bem

E hoje não estou bem
E me perguntam o que houve ?
A pergunta certa foi o do que não aconteceu ?

Não se preocupe a vida tem destas coisas...
Peço aos meus filhos que se protejam da violência

Ultimamente as coisas que desejo, já não as tenho, não estão presentes
Mas o que me conforta é saber que não se perde o que nunca teve

Gildenberg Ferreira

segunda-feira, 28 de março de 2011

Poema da gare de Astapovo

O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo
Contra uma parede nua...
Sentou-se ...e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Gloria,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E entao a Morte,
Ao vê-lo tao sozinho aquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali a sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta...)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se ate não morreu feliz: ele fugiu...
Ele fugiu de casa...
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade...
Não são todos que realizam os velhos sonhos da infância!


Mário Quintana
Coisa Amar

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.

Manuel Alegre

Silvestre Fonseca plays Nem às paredes confesso (Fado)

segunda-feira, 21 de março de 2011

O amor do mundo novo

O amor que impera o novo mundo,
é coberto de farsas iludidas;
Flertam-se ao consolo profundo,
O desejo enforca-as padescidas.

É que em todo gão de prudência,
mais vale a sobra por contraste;
Ou se rende a alma de decência
Ou se perde a carne quando amaste?

A face bafeja a vulúpia da desgraça,
Os olhos desbotam as fibras do caminho,
A liberdade comrrope-os por graça,
E ainda o amor, permanece sozinho?...

Trocam-se a fama pelo desperdício,
a honra por qualquer moeda colorida;
A fé, pelo temor da avareza e do delírio,
E rompe-se o barco, a triste partida!...

sexta-feira, 18 de março de 2011

Crianças abandonadas

As crianças são a face da virtude,
mas a virtude está ameaçando-as.
As crianças são imagens da humildade,
mas a humildade está se largando delas.
E sentem elas dores de cada terra:
Umas sentem fome na terra onde nasceram;
outras choram em meio ao desespero da violência;
Umas se calam para concederem um crime contra vossa alma,
Outras gemem em busca de vossos pais,
E outras clamam por justiça,
pelo direito de viverem em vossos berços e lhes são negados;
Outras pairam e refletem e insistem a beira do colapso
e o que verem
e o que buscam
e o que vos alimentam
e o que vos ensinam,

é o que vos deixam em pânico,

é quando entendem que o mundo futuro não há mais lugar para deixá-los serem crianças
e sim
"crianças do abandono..."

domingo, 13 de março de 2011

Os melhores da Guitarra Portuguesa

O homem que não era cavalo que não era homem

José Pedro Goulart


De modo que eu vinha guiando meu carro na rua, quando vi esse homem só de bermudas conduzindo uma carroça velha. Você não vê (ou se vê, é raro) pessoas dirigindo automóveis sem camisa, entretanto é comum homens conduzirem carroças assim - é um caso aceito. Como é aceito que índios andem despidos, ou padres usem saias.

O que não é aceito é que se maltratem animais nas ruas - especialmente nessa nossa época em que os bichos são protegidos por entidades constituídas para isso - e o homem chicoteava com vigor o cavalo que puxava a carroça. Era um trabalhador na luta pelo pão de cada dia, o que poderia amenizar a situação. Mas aquilo dava pena, o animal estava judiado, quase pele e osso. Andava cabisbaixo, encilhado, amarrado, chicoteado.

Parei do lado da carroça, abri o vidro elétrico e com isso perdi um tanto do ar condicionado do auto. O calor que veio da rua incendiou minha alma que já queimava de indignação. Como não sou índio, eu estava completamente vestido; e como não sou padre também, não estava com uma saia arejada. Mesmo assim, repleto de bons sentimentos, protestei. "É necessário bater nele desse jeito?". E lembrando algum aprendizado remoto na vida, conciliei: "Não dá para 'mostrar' o chicote apenas?" O carroceiro me olhou e sorriu: "Ah, essa égua só anda a pau."

A situação piorou: o cavalo era uma guria. Uma moça. Ou ainda, uma senhora. Quem sabe não terá tido filhos, outros cavalos que andam por aí a puxar carroças e serem chicoteados.

Me deu vontade de brigar com o sujeito, mas o sorriso dele, compreensivo com meu arroubo, me desconcertou. Ele que não tinha vidro elétrico nem ar condicionado. Talvez num ato alucinado, desmedido, eu pudesse fazer-lhe uma proposta pela égua: passar a cuidar dela, dar banho, comida e, mais do que tudo, carinho.

Era uma idéia maluca, aquela. Mas corajosa. Um movimento contrário à onda implacável e cruel do nosso destino de dor e morte. Afinal, como disse Nietzsche: "Há sempre uma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura". Reza a lenda inclusive que ele terminou de enlouquecer (terminou porque ele já vinha derretendo os fusíveis há tempos) quando viu um homem açoitando um cavalo na rua.

Mas eu, sem sequer me dar o direito de endoidar, desisti. Chicoteei o pedal do acelerador e com isso acionei os mais de cem cavalos do motor do meu carro e me mandei dali. Deixando a égua, o sujeito, e aquela fatia de vida miserável para trás.

"Até os mais corajosos (e nem é o meu caso) raramente têm a coragem para aquilo que realmente sabem". Essa também é do bigodudo.
Artista brasileira ganha destaque por mostra na Inglaterra

A artista plástica Lara Viana mantém até este dia 27 uma exposição que ganhou destaque na Inglaterra. A mostra com os trabalhos da brasileira foi listada pela revista de arte Saatchi como uma das dez maiores da arte contemporânea.

Nascida em Salvador, Lara vive no Reino Unido desde a adolescência e fez mestrado em pintura no Royal College of Art de Londres. Em 2008, já havia sido escolhida pela rede Bloomberg como uma das principais artistas contemporâneas e expôs na Bienal de Liverpool.

Em fevereiro, abriu a terceira exposição individual da carreira de Lara, no museu The Regency Town House, um casarão restaurado na costa sul da Inglaterra. Na mostra Ruins (Ruínas), as telas brincam com uma mistura de realismo e de arte abstrata. "Uso a tinta de uma forma fluida, a imagem se 'dissolve', se tornando menos reconhecível e mais abstrata", explica a artista.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Cantiga sua partindo

Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.


Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tão tristes, os tristes,
tão fora de esperar bem
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.



João Roiz de Castelo-Branco,
poeta português do séc. xv
Cancioneiro Geral
O sonho da noite alta

(Ao meu amor Adriana A. Pereira)

Cansara a vigília de sobrolho carregado,
emudecera a ventura onírica
entre a luz negra deste corpo doentio.
Padeceram aos céus,
as estrelas luzidias
e em meio à face,
como se dum anjo divinal,
Um casal de pombas alvas,
Voou das mãos trêmulas e inseguras;
Os astros pairaram ante o universo em chamas.
Minha alma, lentamente caminhava
e a trote largo,
os humildes querubins
assentaram-se a beira da cama frágil;
Vossos braços santos e benditos,
supriram o peso da cólera.
Fecharam-se as chagas que haviam causado aflição.
Outro anjo,
comovido de me ver fatigado,
pôs-se a mão ao pescoço
e caminhou a sombra de todos os meus paços!...

O meu sonho se realizou!

Pombal, 06 de março de 2011.

domingo, 6 de março de 2011

Canção do exílio

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Gonçalves Dias

Coimbra - julho 1843.

PASSAROS SILVESTRES